“Um dia me disseram que as nuvens eram de algodão” e eu não acreditei. Um dia me disseram que todas as mulheres encontrariam sua “alma gêmea”, a “metade da laranja”, e eu acreditei. Passei minha adolescência acreditando que o ideal do gênero feminino era o amor.
Esse sentimento que é “Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê”, o amor, foi o foco das minhas leituras antes de entrar no Curso de Letras. Cresci lendo as revistas “Júlia / Sabrina/ Bianca”, os chamados “romances de banca”, (influência da minha mãe). “Cada série levava um título feminino, todas retratavam mulheres em busca de um príncipe encantado e narravam grandes histórias de amor”. Eu me deleitava naquele universo amoroso.
Já na Universidade, vieram os romances românticos – A Viuvinha (1857), Lucíola (1862), Diva, (1864) e Senhora (1875), de José Alencar. Ou seja, assim como as mulheres do século XIX, que liam romances românticos e folhetins, obras consideradas fúteis e alguns casos perigosas, o amor romântico sempre esteve no meu radar literário.
Quando li Madame Bovary (1857), obra-prima do realismo francês, de Gustave Flauber, me dei conta de que as ilusões românticas e a busca por um amor inatingível mataram Emma Bovary.
O amor que está presente na Carta dos Coríntios 13, onde o apóstolo Paulo define o amor cristão (ágape) não como um sentimento, mas como uma ação paciente e bondosa, que “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” é bem diferente daquele concebido pelas personagens alencarinas e flaubertiana: egoísta, fantasioso, platônico.
São tantas as concepções sobre o amor, são tantas as interpretações sobre o amor, que ao longo dos séculos, esse substantivo abstrato, esse sentimento complexo, acabou sendo cooptado pelo sistema capitalista. Quem dos leitores leu pensadores como Eva Illouz (capitalismo afetivo), Zygmunt Bauman (amor líquido) e Valeska Zanello (dispositivo amoroso) já compreendeu que tais teorias nos mostram que as relações amorosas são guiadas pela lógica do mercado, do consumo e da eficiência.
Na obra Saúde Mental, Gênero e Dispositivos: Cultura e Processos de Subjetivação, a pesquisadora e escritora (2018) Valeska Zanello, nos faz alguns questionamentos:
“Por que mulheres têm tantas queixas na esfera do amor?
De se sentirem não amadas, de não receberem tanto afeto quanto gostariam ou sentem que oferecem e, um fato que sempre me encucou, simplesmente por estarem sozinhas?
Por que quando não têm alguém se sentem encalhadas? (…)”.
Não tenho a mínima pretensão de responder cada uma dessas perguntas, mas pensar sobre elas, sim. Nós mulheres nascemos e somos alimentadas de muitas ideias. A mais cruel de todas, ao menos para mim, é a de que o amor é a nossa razão de ser e de existir. Por isso, deveríamos estar totalmente dispostas ao sacrifício. Parte de nossa existência é para “agarrar um bom partido”; a outra parte, para “conservar esse partido”. Àquelas que não estiverem disponíveis serão taxadas de loucas, bruxas, feministas, logo, enfrentarão a pressão familiar e social.
No capítulo 4 da obra acima mencionada – Dispositivo amoroso – Zanello nos diz que o amor é a maior e mais invisível forma de “apropriação e desempoderamento das mulheres”, já que funciona como um “projeto de controle social”. Esse projeto, infelizmente bem-sucedido, educa-nos para a dependência afetiva e para a submissão. As necessidades do masculino sempre devem estar em primeiro lugar.
Neste sentido, o dispositivo amoroso é um mecanismo criado pela sociedade patriarcal para vulnerabilizar as mulheres (Zanello parte das relações binárias), já que o amor é o caminho e o fim delas. Não é à toa, que segundo a pesquisadora, “Na nossa cultura, os homens aprendem a amar muitas coisas e as mulheres a amar os homens”. Vou mais além: amam as coisas que os homens gostam. Via de regra, as mulheres escutam as bandas/cantores que seus maridos companheiros/maridos ouvem, sabem sobre o time de futebol (algumas até torcem) e apreciam as bebidas (algumas não bebem) deles.
A grande questão que devemos estar atentas: vivemos por/para nós, ou para o outro? Gostamos daquela música porque ela nos toca profundamente, ou por que o outro a escuta? Frequentamos o estádio porque crescemos incentivadas a gostar de futebol, ou por que o outro frequenta e não queremos deixá-lo sozinho? Não podemos nos esquecer de que entre os anos de 1941 a 1979, o Decreto de Lei 3.199, assinado por Getúlio Vargas, proibia a prática do futebol feminino, pois era considerado uma prática incompatível com “as condições de sua natureza”. Prejudicial à saúde da mulher é o “cidadão de bem” e jogador do Santos Neymar, conhecido por “cai, cai” (somente por aquelas que não entendem de futebol, claro), acusar a arbitragem de estar “de chico”.
Também devemos estar atentas aos livros românticos (já falados), às músicas e aos filmes de comédia romântica. Estamos falando de aliados do dispositivo amoroso criados para iludir o gênero feminino ao mostrar narrativas inalcançáveis na vida afetiva real. O “felizes para sempre” ignora o comprometimento e a maturidades nas relações marcadas por alto e baixos.
Há ainda os filmes de “Princesa da Disney” indicados para o público infantil. Tais princesas – brancas, magras, delicadas e gentis – são concebidas para cuidar, limpar, cantar, ser submissa e esperar a salvação através de um príncipe. Se tais princesas realmente existissem em nosso mundo, todas estariam doentes devido ao tipo de vida que levavam, é o que aponta um estudo da The BMB desenvolvido em 2024.
O dispositivo amoroso, junto com seus aliados, subjetiva as mulheres na “prateleira do amor”, metáfora criada pela Zanello, em que a pesquisadora explica que o sistema patriarcalista coloca as mulheres em uma hierarquia de valor, semelhante as prateleiras de um supermercado, baseada em padrões estéticos. Se for jovem, esbelta, magra, branca, cabelos lisos e loiros ficará na prateleira de cima, logo, terão mais chance de serem escolhidas e validadas. Enquanto isso, as mulheres negras, gordas, com algum tipo de deficiência (PCD) e mais velhas serão frequentemente preteridas ou objetificadas.
Toda essa realidade, torna as mulheres não só vulneráveis, mas também mais propensas a terem mais problemas de saúde mental. Quem lucra, claro, é o sistema capitalista. Para essa mulher ser escolhida e validade existe uma indústria da beleza (quarto maior mercado mundial) movimentando bilhões e influenciando comportamentos e tendências.
O lucro é compartilhado com o sistema patriarcal que aprisiona, silencia e adoece as mulheres. Aos homens, numa posição extremamente confortável, cabem o papel de avaliar e escolhê-las, criando uma “terceirização da autoestima” feminina, gerando uma desigualdade entre os gêneros.
Fico pensando em ações práticas para combater o dispositivo amoroso.
Fico me perguntando como ainda é possível nós nos perdemos em nós mesmas.
Fico criando estratégias para compartilhar com outras mulheres para que possamos nos fortalecer e não permitir que o outro tire de mim minha autoestima, minha carreira, minha prioridade e meus desejos.
A educação, a informação, a leitura, a participação em grupos de estudo e de pesquisa promovem relações mais igualitárias, diminuem rivalidades e criam personalidades mais críticas e empáticas.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
