Daniella Perez: uma história de violência, luta por justiça e transformação social

Daniella Perez: Biografia, crime e justiça, de Bernardo Braga Pasqualette, é uma obra nacional bastante completa sobre um dos crimes que mais chocaram o Brasil. O autor não se limita a reconstruir o assassinato de Daniella Perez, mas apresenta diversos aspectos relacionados ao caso, desde a trajetória da atriz até a investigação, o processo judicial, o julgamento e seus desdobramentos. Com isso, apresenta-se, a seguir, uma breve contextualização da trajetória da atriz e dançarina Daniella Perez, destacando os acontecimentos que envolveram seu assassinato e as repercussões sociais e jurídicas que fizeram de seu caso um marco na história do Direito brasileiro.

Sabe-se que em dezembro de 1992, o Brasil foi marcado por um crime que provocou profunda comoção nacional: o assassinato da atriz Daniella Perez, aos 22 anos. Filha da dramaturga e novelista Glória Perez, Daniella estava em ascensão na televisão e integrava o elenco da novela ‘De Corpo e Alma’, exibida pela Rede Globo. Na produção, contracenava com o ator Guilherme de Pádua, que interpretava seu par romântico. Em 28 de dezembro daquele ano, após deixar os estúdios de gravação, a atriz foi vítima de uma emboscada e assassinada por Guilherme de Pádua e sua então esposa, Paula Thomaz. O caso ganhou enorme repercussão não apenas pela brutalidade do crime, mas também pela relação profissional entre a vítima e seus assassinos. Só m 1997, cinco anos após o crime, ambos foram condenados por homicídio qualificado (1).

Sob a perspectiva jurídica, a obra de Bernardo Braga Pasqualette também possibilita compreender como o assassinato de Daniella Perez ultrapassou os limites de um processo criminal e provocou repercussões significativas na legislação brasileira. A mobilização liderada por sua mãe, Glória Perez, reuniu aproximadamente 1,3 milhão de assinaturas em uma campanha pela inclusão do homicídio qualificado no rol dos crimes hediondos (2). A iniciativa contribuiu para a aprovação da Lei nº 8.930, de 6 de setembro de 1994 (3), que alterou a Lei nº 8.072/1990 (4) (Lei dos Crimes Hediondos). Tal episódio representa um importante exemplo da participação social no processo legislativo e evidencia como a indignação coletiva diante de uma violência pode impulsionar discussões e mudanças no ordenamento jurídico.

Entretanto, é importante considerar que, como o crime ocorreu em 1992 e a alteração legislativa foi aprovada somente em 1994, a nova lei, por estabelecer um tratamento mais rigoroso para esse tipo de crime, não poderia ser aplicada retroativamente aos condenados. Isso ocorre porque a Constituição Federal de 1988 (5) proíbe que uma lei penal posterior, quando mais severa, seja aplicada a fatos ocorridos antes de sua entrada em vigor. Assim, a relevância histórica do caso também reside em sua contribuição para a construção de novos instrumentos legais de enfrentamento à criminalidade.

No que diz respeito à narrativa em si, trata-se de um livro bem detalhado, e esse foi um dos pontos que mais gostei: a quantidade de informações. No meu caso, que apesar de no ano de sua morte (1992) ainda não ser nascida, acompanho a história de Daniella Perez sob várias nuances, uma delas foi ter assistido a inúmeros documentários (6) , reportagens e programas sobre o crime, mesmo já tendo assistido e lido muito sobre o assunto, confesso que não esperava encontrar tantas informações novas. Sendo assim, o livro conseguiu me surpreender e trazer detalhes e perspectivas que eu desconhecia, o que considero um de seus maiores méritos.

Por outro lado, essa riqueza de informações também foi, para mim, o principal ponto negativo. Em alguns momentos, o excesso de detalhes torna a leitura cansativa, especialmente porque determinadas informações acabam sendo retomadas de forma repetitiva. Senti que algumas partes poderiam ser mais objetivas sem comprometer a profundidade da obra.

Ainda assim, considero que esse detalhamento é também o grande diferencial do livro. Foi uma leitura pesada em alguns momentos, por se tratar de uma história real, mas que me fez refletir sobre crime, justiça, mídia e sobre a própria memória de Daniella Perez.

No geral, gostei da experiência e reconheço o valor de uma obra tão detalhada na reconstrução de um caso que marcou profundamente o Brasil. Uma leitura para quem quer conhecer a história de Daniella para além das manchetes e descobrir que, mesmo depois de tantos anos e tantas reportagens, ainda havia muito a ser conhecido.

P.S.: Prepare-se. Esse é daqueles thrillers que você termina e fica pensando nos detalhes por dias.

Sobre a autora:

Bárbara Larissa Alexandre Filgueira Mota

Amante de livros, cinema e boas histórias. Bibliotecária, apaixonada pela leitura e pelo universo da informação, acredito que tudo ao nosso redor pode ser fonte de conhecimento e aprendizado. Gosto de explorar diferentes narrativas, conhecer novas perspectivas e compartilhar experiências por meio da leitura. Porque cada história, real ou fictícia, tem algo a nos contar.

    Notas:

    (1) Homicídio qualificado é o crime de matar alguém (artigo 121 do Código Penal Brasileiro) praticado sob circunstâncias específicas que demonstram maior gravidade, perversidade ou reprovabilidade.

     (2) Crime hediondo significa algo extremamente repulsivo, horrível, sórdido ou que causa grande indignação e nojo.

     (3) Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8930.htm. Acesso em: 2 nov. 2026.

     (4) Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8072.htm.  Acesso em: 2 nov. 2026.

    (5) Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 2 nov. 2026.

     (6) O documentário que me fez querer saber mais sobre a vida de Daniella Perez foi Pacto Brutal: o assassinato de Daniella Perez, o qual encontra-se disponível na plataforma de streaming HBO Max. Esse documentário é muito rico, pois retrata a investigação incansável da mãe e novelista Glória Perez em busca por justiça pela sua filha.

    REFERÊNCIAS:

    PASQUALETTE, Bernardo Braga. Daniella Perez: biografia, crime e justiça. Rio de Janeiro: Editora Record, 2022. 764 p.

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